Igualdade de Gênero e Apagamento da Dominação Masculina

“A grande massa de mulheres ao longo da história tem sido confinada ao nível cultural da vida animal, provendo o macho com a entrega sexual e exercitando as funções animais de reprodução e cuidados dos mais novos.”

– Kate Millet, Política Sexual

Desde sempre, pessoas do sexo masculino venderam, compraram, usaram, abusaram, mandaram, mataram e decidiram sobre pessoas do sexo feminino. Isso ainda é uma realidade em diversos países neste exato momento.

Pessoas do sexo feminino, rotuladas como mulheres para obedecerem a uma série de características estereotipadas que servem para perpetuar essa dominação, foram proibidas de estudar, pesquisar, participar de qualquer coisa, especialmente espaços públicos, possuir propriedades e tudo com justificativa que tal inferioridade – socialmente imposta – era de sua natureza.

Toda a existência dessas pessoas agrupadas como “mulheres”, tudo que podiam ter, ser ou almejar em sua vida estava vinculado ao macho. Ele detinha todo o poder sobre a vida dela. De modo que caso esse homem morresse ou abandonasse a mulher, a ela sobraria a pobreza absoluta (já que não podia ter posses, nem podia estudar ou trabalhar), a prostituição, onde continuaria sendo usada por homens, o mais baixo status social e, adicionalmente ou consequentemente, a morte.

Pessoas do sexo feminino foram tratadas como animais fêmeas que apenas serviam para procriar e satisfazer as vontades sexuais do macho de sua espécie. Com muita greve, muita luta e muitas mortes, mulheres conseguiram pouco a pouco seus direitos, que sempre haviam sido negados. Estudar, trabalhar, estar na política, divorciar, denunciar, ter posses.

Claro que com milênios de atraso, ainda hoje vemos a disparidade dos sexos nas representações. O número de homens em cargos de direção e chefia é ridiculamente superior ao número de mulheres. Mesmo pesquisas mostrando que elas têm mais tempo de estudo, em geral. O máximo que chegamos quando o assunto é política, foi o absurdo número de 15 mulheres chefes de Estado em 2015. Mas são mais de 190 países no mundo! Ainda há dezenas de países em que mulheres não podem estudar, trabalhar, dirigir, divorciar ou participar na política.

As únicas estatísticas em que pessoas do sexo feminino tem alta representatividade e são maioria são: vítimas de estupro (maioria dos estupradores: sexo masculino), vítimas de tráfico humano (maioria dos traficantes: sexo masculino), situação de prostituição (maioria dos compradores: sexo masculino), casamento infantil (pedófilos: sexo masculino), vítimas de homicídio pela mão do companheiro ou ex (assassinos: sexo masculino).

 

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Ceci n’est pas une Patriarcado

Lembra que falávamos em “guerra dos sexos”? A gente falava de grupos de pessoas, o que evidenciava uma questão política, uma relação de poder, uma estrutura. Ainda hoje é visível a discrepância entre os sexos. Mas agora falamos em “gêneros”. De identificação. Não de grupos, mas de indivíduos.

Hoje falamos de pessoas que se identificam com outro gênero, ou nenhum gênero, ou vários gêneros. Há uma pancada de gêneros no buffet das identidades. Você pega o que for mais conveniente. Senão, mistura uns quantos que achar e cria mais uma identificação. Isso apaga milênios de opressão de classe, de problemática e evidente discrepância entre os sexos, porque reduz tudo a uma questão individual de identidade e escolha.

Mas vamos trazer as ideias para a realidade.

estatísticas estupro no brasil feminismo
O que é o aborto e gravidez na Ideologia de Gênero? Atualmente, fala-se em homens grávidos, homens que amamentam. Qual o sexo desses homens que engravidam? Qual o sexo das gestantes vítimas de estupro, aborto clandestino e violência obstétrica? E qual o sexo dos estupradores?

 

Pense as estatísticas que eu citei. Pense a questão do estupro, por exemplo. Se metade dos estupradores forem do sexo masculino, mas se identificarem como “mulheres”, isso diminuirá a desigualdade? Se metade das vítimas, sendo do sexo feminino, se identificarem como “homens”, diminuirá a desigualdade?

Vou além: se metade dos CEO e dos presidentes do mundo todo, sendo do sexo masculino, dissessem hoje que se identificam como mulheres, teríamos alcançado um mundo mais igual?

Ainda que pudéssemos falar num cenário de “igualdade de gênero”, não poderíamos falar em equidade real. Por motivos óbvios e históricos, ser do sexo feminino continuaria sendo uma realidade que joga contra nós nessa sociedade em que o sexo masculino tudo pôde, desde sempre, é a nós só tenha sido legado a violência sexual, seja no parto, no casamento, na castidade, no controle, em tudo.

Por causa das circunstâncias sociais, macho e fêmea são realmente duas culturas e as suas realidades e experiências de vida são totalmente diferentes – e isso é crucial.

– Kate Millett, Política Sexual

Hoje, o movimento da transgeneridade que reivindica, entre outras coisas, que pessoas do sexo masculino sejam reconhecidos como mulheres em todas as instâncias porque assim o desejam, porque assim “se identificam”, é sim uma ameaça à equidade pela qual mulheres têm lutado por tantos anos. E não porque queiramos manter os papeis fixos de homem e mulher impostos pelo Patriarcado (afinal, é o próprio movimento que está reivindicando o “direito” a papeis sexuais que sempre foram, para nós, imposição). E sim porque ao falar de gênero e apagar o sexo, omitem o rastro milenar de violência masculina que feministas têm lutado para que seja reconhecido e combatido. Como Charles Rea escreveu em seu artigo “Existem Bons Motivos Para se Opor ao Transgenerismo?”:

“Se não se consegue distinguir legalmente o que são mulheres, não se pode protegê-las. Para proteger mulheres com bases legais é necessário que identifiquemos primeiramente que mulheres são diferentes de homens, e é o que leis como a Title 9 e a ERA (que nunca passaram) são baseadas: em proteções baseadas nas diferenças sexuais.”

– Tradução por Mariana Amaral

Uma pauta que começa a surgir, e sem dúvida alguma vai galgar espaços nos movimentos invadidos pelo pós-modernismo, é uma suposta Transracialidade. Pessoas brancas que “se identificam” como negras. Mesmo tendo vivido uma vida de privilégios branco, mesmo nunca sabendo o que é de fato racismo, estereotipam características de pessoas negras e se dizem negras. Se mais brancos declararem que se identificam como “transnegros” e demandarem ser enquadrados como tais em todas as leis de reparação e cotas, veremos, com isso, uma diminuição do racismo? Ou o contrário? Apagaria todas as evidências de violência contra negros?

É a mesmíssima situação que as mulheres e o movimento feminista vivem hoje com os gêneros.

Nós não queremos igualdade de gênero. Queremos equidade entre os sexos.

Não queremos escolher um gênero dentro das possibilidades patriarcais, queremos ser e existir em liberdade. Por fim, nenhuma feminista quer apagar pessoas “trans” ou tirar-lhes direitos: identifique-se como quiser, faça as cirurgias que quiser, vista-se e expresse como bem entender, mas que a sua individualidade não coloque em risco uma classe inteira.

 

 

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