Feminismo Liberal e Feminismo Radical: Igualdade de Gênero

Igualdade de Genero Feminismo Literal
Igualdade de Gênero = homens e mulheres são iguais.

Você provavelmente já ouviu a máxima de que o Feminismo luta pela igualdade de gênero, certo? Direitos iguais para homens e mulheres, certo? Isso não é exatamente verdade.

Como mencionei na publicação anterior, o feminismo não é um movimento uno; é formado por vertentes que ao divergir na compreensão dos conceitos e na análise, divergem também no objetivo de luta.

No primeiro artigo, falei sobre a prostituição para exemplificar como a diferença da análise (individualista versus estruturalista) fazia com que o Feminismo Liberal e o Radical tivessem pautas de luta diferentes nessa questão. Para quem não leu e pegou o bonde andando:

  1. O Feminismo Liberal reivindica a regulamentação da prostituição como um trabalho regular e entende que isso pode ser uma questão de escolha e vontade da mulher; além disso, a vertente liberal geralmente compreende a Prostituição como uma forma de transgressão ao controle da sexualidade feminina na sociedade moralista (visto que a mulher devia “guardar” seu corpo para o marido, o casamento, e só transar para procriar); uma certa forma de revolução sexual.
  2. O Feminismo Radical reivindica um sistema abolicionista para a Prostituição, entendendo que é uma forma de violência para a qual as mulheres foram condicionadas em decorrência da estrutura patriarcal da sociedade – que afastava mulheres da economia, dos estudos, hipersexualizada, objetificava e tornava a mulher dependente dos maridos em todas as instâncias. O Feminismo Radical não vê a prostituição como uma revolução sexual, pois compreende que o Patriarcado sempre colocou a sexualidade da mulher para servir ao homem e que só parece “transgressor” em oposição à outra situação (casamento) igualmente opressora.

Quando o assunto é gênero, as análises novamente divergem e as diferentes compreensões conceituais refletem na prática e nas pautas de luta.

Diferentes concepções sobre o Gênero

ninguémnasce mulher-torna-se mulher.
Famosa frase de Beauvoir sobre o condicionamento ao papel social por causa do sexo de nascimento.

Enquanto o Feminismo Radical é considerada a segunda onda do movimento (surgida nos anos 60), o Feminismo Liberal é a terceira (década de 90). Estou trazendo datas à tona por um motivo simples: o conceito de gênero, como utilizado hoje, nem sempre esteve presente.

Na verdade, os estudos que cunhariam esse conceito subjetivo de gênero começaram nos anos 50, com crianças intersexo, mas só nas décadas seguintes – especialmente dos anos 80 em diante – é que seu uso comum realmente seria consagrado entre os movimentos sociais.

Portanto, é óbvio que a segunda onda não falasse em gênero; como também é óbvio que a terceira onda falaria. E por mero detalhe que pareça, é o gênero o divisor de águas do feminismo.

Para o Feminismo Liberal, o Patriarcado consiste numa opressão de gênero: a opressão dos homens sobre as mulheres. Essa vertente também apoia amplamente as questões Queer e LGBTQIA+, advogando que elas são, devidamente, pautas feministas – uma vez que o Patriarcado oprime a todos (embora as mulheres em especial).

Sendo uma vertente individualista, o Feminismo Liberal advoga pela liberdade à individualidade, portanto, ao abranger a linha Queer e LGBTQIA+ como responsabilidades do Movimento Feminista, ela clama não só pela igualdade de gênero entre homens e mulheres, mas pela igualdade entre todos os gêneros (homens, mulheres, agêneros, não-binários, etc) como pauta-fim do Feminismo.

Já para o Feminismo Radical, existe uma dominação na sociedade (Patriarcado), mas a base dessa dominação é o sexo, não o gênero. Enquanto o gênero é fim para o Feminismo Liberal, na segunda onda o gênero é meio. Ou seja, a construção social gênero (Homem/Mulher) não é a base da opressão, mas sim a forma como ela é efetivada.

Simone de Beauvoir, cuja obra é uma das principais referências na segunda onda, falava sobre o “destino biológico” da mulher, pois era com base no sexo do recém-nascido que ditariam o destino da criança na sociedade. Para as pessoas do sexo feminino, isso significava uma vida privada de muitos direitos, comportamentos controlados e a finalidade inevitável do casamento, a geração dos filhos e a manutenção dos serviços domésticos. A autora também apontou estudos que evidenciavam como bebês do sexo feminino eram tratados de forma diferente desde a gestação e cunha o conceito do “Outro”: a mulher eram sempre definida a partir do homem como referência, nunca como ser humano autônomo.

Resultado na prática feminista

As consequências dessas divergências ficam evidentes nas práticas do movimento feminista e têm consequências reais na transformação da sociedade.

Ao compreender o gênero como a base da opressão patriarcal, o Feminismo Liberal ignora e até apaga a dominação sexual que existe – como as problemáticas da mutilação genital, do aborto proibido, das escravas sexuais, do estupro, da subrepresentatividade do sexo feminino em todas as instâncias sociais comparadas à representatividade masculina.

Nessa percepção, sendo o gênero algo subjetivo do invidíduo, não-material, passivo apenas de uma identidade ou um sentimento, basta transgredir o gênero, criar mais gêneros ou igualar os gêneros para que a opressão deixe de existir. Qual seria a consequência disso na realidade?

Essas ideias levaram à noção de que deveria haver um reconhecimento da existência de muitos “gêneros”. Os muitos gêneros poderiam incluir, nesse entendimento, uma lésbica machona ou uma lésbica afeminada, uma drag queen ou um gay masculino sadomaso dominante, bem como uma mulher heterossexual feminina ou um homem heterossexual masculino, mais outras combinações. Essa abordagem separa o gênero da sua base material na opressão das mulheres. O problema se torna simplesmente a escassez de uma das oportunidades de gênero.
(Unpacking Queer Politics, Sheila Jefrreys)

Um exemplo é a mencionada subrepresentatividade das pessoas do sexo feminino nas instâncias sociais, que não é uma mera questão de gênero. O acesso à educação, trabalho, saúde e o exercício da política foi vetado às pessoas do sexo feminino por milhares de anos. A base dessa proibição era o sexo da mulher – categoricamente afirmado inferior e menos capaz que o sexo masculino ao longo da história.

Supondo que homens nascidos do sexo masculino – sexo que sempre teve o domínio em todas as instâncias sociais – se identificassem com o “gênero” oposto e passassem a ocupar instâncias sociais como “mulheres”, isso não diminuiria a discrepância e desigualdade que ainda hoje existe. Continuaríamos a ter uma subrepresentatividade de pessoas do sexo feminino. A desigualdade continuaria sendo a de uma classe sexual em relação à outra.

Afirmar que o problema é o gênero, algo subjetivo, é afirmar que a opressão é horizontal e que todos sofrem igualmente, já que é uma mera questão de identificação ou desidentificação.

O Feminismo Radical, por outro lado, usa muito o termo “violência masculina” para denunciar um padrão de violência frequentemente encontrado vindo de pessoas do sexo masculino. E que, para a vertente, é também, mas não só, uma questão de gênero.

É uma questão de gênero na medida em que existe a ideia de “masculinidade” como um padrão de gênero incucado, estimulado e ensinado para as pessoas do sexo masculino – especialmente sobre a outra classe sexual. Mas não é só uma questão de gênero na medida em que 1) não existe uma simetria para o outro gênero; e 2) o padrão de violência, embora frequentemente direcionado às pessoas do sexo feminino, também se estende aos “outros gêneros”, não só às mulheres.

Para clarificar um pouco mais, existem duas situações bastante significativas e sintomáticas sobre isso e que não podem mais ser considerados “casos isolados”:

  1. Mulheres trans que são estupradas ou agredidas por homens do sexo masculino; o que faz o Feminismo Liberal e outros movimentos afirmarem que essas pessoas também sofrem a misoginia e o machismo como uma mulher do sexo feminino;
  2. Mulheres trans que estupram e agridem mulheres do sexo feminino; o que faz o Feminismo Radical denunciar a continuação do padrão de violência masculina presente mesmo após a “transição de gênero” da pessoa do sexo masculino que se apresenta como Mulher Trans.

Em ambas as situações, os agressores são pessoas do sexo masculino e o gênero então assume pouca ou nenhuma diferença nesse caso.

Objetivo-fim na luta Feminista

Assim, enquanto o Feminismo Liberal compreende a opressão patriarcal como uma opressão de gênero e pede pela Igualdade de Gênero como sua pauta final para a sociedade igualitária, o Feminismo Radical, por sua vez, compreende o sistema de gênero como uma ferramenta patriarcal feita para ser, por si só, desigual; e que, portanto, não pode jamais atingir um patamar de “igualdade”, por isso a vertente luta pela abolição dos gêneros.

Os dois gêneros atuais (…) são na verdade os comportamentos da dominação masculina e da submissão feminina. Com o fim da dominação masculina, esses comportamentos não teriam substância. Eles se tornariam inimagináveis e seres humanos precisariam imaginar novas formar de se relacionar que não incluíssem comportamentos que não aflorassem de um sistema político suplantado.

O entendimento de gênero como formas de comportamento dominante e subordinado põe em cheque a ideia de que podem existir muitos “gêneros”. Só podem existir formas de expressar a dominação e submissão por outros que não os atores atuais. Os gêneros continuam dois. A abordagem queer que celebra a “performance” de gênero e sua diversidade necessariamente mantém os dois gêneros em circulação. Invés de eliminar comportamentos dominante e submissos, ela os reproduz.

(Unpacking Queer Theory, Sheilla Jeffreys)

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