Pensamento Feminista Negro – Prefácio da Primeira Edição [Tradução]

“Black Feminist Though” – Patrícia Hill Collins
Tradução de: Aline Rossi

 

Black Feminist Though Tradução, Pensamento Feminista Negro traduzidoPrefácio da Primeira Edição de Black Feminist Though

Quando tinha cinco anos, fui escolhida para ser a “Primavera” no concurso pré-escolar. Sentada no meu trono, presidi orgulhosamente um tribunal de crianças que interpretavam pássaros, flores e outras estações “menores”. Estar rodeada de crianças como eu – filhas e filhos de trabalhadores, trabalhadoras domésticas, secretárias e operários fabris – afirmava quem eu era. Quando chegou minha vez de falar, pronunciei minhas poucas linhas com maestria, com grande entusiasmo e energia. Eu amava a minha parte porque eu era a Primavera, a estação da vida e esperança. Todos os adultos me diziam quão vital era a minha parte e parabenizavam-me sobre como eu tinha ido bem! Suas palavras e abraços me fizeram sentir que eu era importante e que o que eu pensei, senti e conquistei importava.

Conforme meu mundo expandia, aprendi que nem todos estavam de acordo com eles. Começando na adolescência, eu era, cada vez mais, a “primeira” ou “uma das poucas” ou a “única” afroamericana e/ou mulher e/ou pessoa da classe trabalhadora nas minhas escolas, comunidades e espaços de trabalho. Eu não via nada de errado em ser quem eu era, mas aparentemente muitos outros viam. Meu mundo aumentava, mas sentia que eu diminuía. Tentei desaparecer em mim mesma para conseguir desviar os dolorosos assédios diários projetados para me ensinar que ser uma mulher trabalhadora afroamericana me fazia ser menos que aqueles que não o eram. E ao me sentir menor, tornei-me mais calada e eventualmente fui mesmo silenciada.

Esse livro reflete um estágio na minha luta contínua para recuperar minha voz. Ao longo dos anos, tentei substituir as definições externas sobre minha vida fomentadas por grupos dominantes pelo ponto de vista da minha auto-definição. Mas mesmo que minha odisseia pessoal forme o catalisador para esse volume, agora sei que minhas experiências estão longes de ser únicas. Como as mulheres afro-americanas, muitos outros que ocupam categorias socialmente preteridas foram igualmente silenciados.  Então, a voz que agora busco é individual e também coletiva, pessoal e política, uma voz que reflete a intersecção da minha biografia única com o significado maior dos meus tempos históricos.

Compartilho essa parte do contexto que estimulou este livro porque esse contexto influenciou minhas escolhas quanto ao próprio volume. Primeiro, eu estava empenhada em tornar esse livro intelectualmente rigoroso, bem embasado e acessível à mais do que aqueles poucos afortunados o bastante para receberem educação de elite. Eu não podia escrever um livro sobre ideias de Mulheres Negras que a vasta maiorias das mulheres afro-americanas não pudessem ler e compreender.

Teorias de todos os tipos são frequentemente apresentadas de forma tão abstrata que só podem ser apreciadas por uns poucos. Apesar de, muitas vezes, serem altamente satisfatórias para acadêmicos, essas definições excluem aqueles que não falam a linguagem das elites e, assim, reforçam as relações sociais de dominação. As elites cultas tipicamente dizem que são as únicas qualificadas para produzir teorias e acreditam que só elas conseguem interpretar não só a sua própria experiência, mas também a de todos os outros. Além disso, as elites cultas geralmente usam suas crenças para assegurar seu próprio privilégio.

Senti que era importante analisar a complexidade de ideias que existem tanto na vida escolar quando na vida cotidiana e apresentar essas ideias de um modo que não fizessem delas menos poderosas ou rigorosas, mas acessíveis. Abordar a teoria dessa forma desafia as ideias das elites educadas e também o papel da teoria na manutenção das hierarquias de privilégio. O volume resultante é teórico na medida em que reflete diversas tradições teóricas como a filosofia afrocêntrica, a teoria feminista, o pensamento social marxista, a sociologia do conhecimento, a teoria crítica e o pós-modernismo; e, ainda assim, o vocabulário padrão dessas tradições, citações de suas maiores obras e conceitos-chave, e esses próprios termos raramente aparecem no texto. Para mim, as ideias, em si, são importantes, não os rótulos que anexamos a elas.

Segundo, coloco as experiências e ideias das mulheres negras no centro da análise. Para aqueles acostumados a ter ideias de grupos subordinados, como mulheres afro-americanas, moldadas da forma que seja mais conveniente aos poderosos, essa centralidade pode ser inquietante. Por exemplo, feministas brancas de classe média encontrarão poucas referências ao chamado pensamento feminista branco. Eu escolhi deliberadamente não começar com princípios feministas desenvolvidos a partir das experiências de mulheres brancas, de classe média, ocidentais e depois inserir ideias e experiências de mulheres afro-americanas. Embora esteja bastante familiarizada com uma série de teóricas feministas brancas, contemporâneas e históricas, e certamente valorize suas contribuições para nossa compreensão de gênero, este não é um livro sobre como mulheres negras pensam as ideias de feministas brancas ou como as ideias das mulheres negras se comparam com as de proeminentes teóricas feministas brancas. Assumo uma postura similar em relação à teoria social marxista e o pensamento afrocêntrico. Para captar as interconexões de raça, gênero e classe social na vida de mulheres negras e seus efeitos no pensamento feminista negro, eu rejeito explicitamente basear minha análise em uma única tradição teórica.

Grupos oprimidos são frequentemente colocados numa situação de só serem ouvidos se moldarmos nossas ideias numa linguagem que é familiar e confortável para os grupos dominantes. Esse requerimento muitas vezes modifica o significado das nossas ideias e trabalhos para elevar as ideias dos grupos dominantes. Nesse volume, ao colocar as ideias de mulheres afro-americanas no centro da análise, não só privilegio essas ideias, mas encorajo feministas brancas, homens afro-americanos e todos os outros a investigarem as semelhanças e diferenças entre seus próprios pontos de vista e os das mulheres afro-americanas.

Terceiro, eu deliberadamente incluí numerosas citações de uma série de pensadoras afro-americanas, algumas muito conhecidas e outras que raramente se ouve falar. Fundamentar, explicitamente, minha análise em múltiplas vozes realça a diversidade, riqueza e poder das ideias das mulheres negras como parte de uma duradoura comunidade intelectual de mulheres afro-americanas. Além disso, essa abordagem contraria a tendência de convencionar bolsas de estudo para canonizar umas poucas mulheres negras como porta-vozes do grupo e, depois, recusarem-se a ouvir quaisquer outras que não essas poucas selecionadas. Ainda que certamente seja apelativo receber reconhecimento pelas próprias conquistas, minhas experiências como a “primeira”, “uma das poucas” e a “única” me mostraram como selecionar umas poucas e usá-las para controlar as muitas pode ser eficiente para sufocar os grupos subordinados. Supor que apenas algumas mulheres negras excepcionais estão aptas a fazer teoria, homogeneíza as mulheres afro-americanas e silencia a maioria. Em contraste, sustento que teoria e criatividade intelectual não são domínio de uns poucos, mas, pelo contrário, emanam de uma série de pessoas.

Em quarto lugar, usei uma metodologia distintiva na preparação deste manuscrito, que ilustra como o pensamento e a ação podem trabalhar juntos na geração da teoria. Grande parte do meu treinamento acadêmico formal foi projetado para mostrar-me que devo me afastar de minhas comunidades, minha família e até de mim mesma para criar um trabalho intelectual credível.

Invés de ver o dia a dia como uma influência negativa na minha teorização, tentei ver como as ações diárias e as ideias das mulheres negras na minha vida refletiam os problemas teóricos que eu reivindicava serem tão importantes para elas. Sem garantias, subsídios, tempo livre ou outros benefícios que permitem que acadêmicos se retirem de suas vidas cotidianas e contemplem seus contornos e significados, escrevi este livro enquanto estava totalmente imersa nas atividades comuns que me colocaram em contato com uma variedade de mulheres afro-americanas. Ao cuidar da minha filha, orientar as mulheres negras, ajudar uma tropa de escoteiras e participar de outras atividades “não-acadêmicas”, eu reavaliei meus relacionamentos com várias mulheres afro-americanas e seus relacionamentos umas com as outras. A teoria me permitiu ver todas essas associações com novos olhos, enquanto experiências concretas desafiaram a visão de mundo oferecida pela teoria. Durante esse período de auto-reflexão, o trabalho nesse manuscrito crescia lentamente e produzi uma pequena “teoria”. Mas sem esse envolvimento no cotidiano, a teoria nesse volume seria imensamente empobrecida.

Em quinto lugar, para demonstrar a existência e autenticidade do pensamento feminista negro, eu o apresento como sendo coerente e basicamente completo. Esse retrato está em contraste com a minha visão real de que a teoria raramente é construída com suavidade. A maioria das teorias são caracterizadas pela instabilidade interna, são contestadas e divididas por ênfases e interesses concorrentes. Quando considerei que o “Pensamento feminista negro” está atualmente incorporado num contexto político e intelectual maior que desafia seu próprio direito de existir, decidi não enfatizar as contradições, fricções e inconsistências do pensamento feminista negro. Ao invés disso, apresento o “Pensamento Feminista Negro” como demasiadamente coerente, mas o faço porque suspeito que essa abordagem seja mais apropriada para esse momento histórico.

Espero ver outros volumes emergirem, que estarão mais propensos a apresentar o “Pensamento feminista negro” como um mosaico de ideias e interesses concorrentes. Concentrei-me nas peças do mosaico – talvez outros enfatizem as distorções que distinguem os pedaços do mosaico um do outro.

Finalmente, escrever esse livro me convenceu da necessidade de reconciliar a subjetividade e objetividade na produção acadêmica. Inicialmente, descobri que o

Inicialmente, achei o movimento entre minha formação como uma cientista social “objetiva” e minhas experiências diárias como uma mulher afro-americana duras. Mas ao reconciliar o que nós fomos treinadas para ver como opostos, uma reconciliação assinalada por inserir a mim mesma no texto usando “eu”, “nós” e “nosso” ao invés de termos mais distantes como “elas” ou “uma”, estava me libertando. Descobri que ambas/e a posição conceitual do Pensamento feminista negro me permitiram ser objetiva e subjetiva, possuir tanto uma consciência afrocêntrica quanto feminista e ser também ambas: uma acadêmica respeitável e uma mãe aceitável.

Quando comecei este livro, tive que superar minha relutância em passar minhas ideias para o papel. “Como posso eu, como uma pessoa, falar por um grupo tão grande e complexo como as mulheres afro-americanas?”, me perguntei. A resposta é que eu não posso nem devo, porque cada uma de nós deve aprender a falar por si. No decorrer dessa escrita, passei a ver minha obra como sendo parte de um processo maior, como uma voz em um diálogo entre pessoas que foram silenciadas. Eu sei que nunca mais terei a curiosa coexistência da ingenuidade e da inabalável confiança que eu tinha quando retratei a Primavera. Mas espero recapturar esses elementos da voz da Primavera, que eram honestos, genuínos e empoderadores. Mais importante, minha esperança é que outras que foram antigamente e são atualmente silenciadas encontrem suas vozes. Eu, deste lado, certamente quero ouvir o que elas têm a dizer.

 

Essa é a primeira parte do livro, que pretendo traduzir integralmente e será publicado aqui no blog conforme for traduzindo. A versão original, em Inglês, pode ser encontrada na Biblioteca Feminista do blog para baixar em PDF.

Anúncios

Um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s