Culpabilização e silenciamento da mulher

Para falar desse assunto é preciso erguer, sobretudo, o fato de que vivemos numa sociedade patriarcal. O que isso quer dizer? Patriarcalismo é a supremacia do homem nas relações sociais. Isso é visível das coisas mais abstratas às mais concretas, das menores às maiores.

A lógica patriarcalista estabeleceu o poder de uma autoridade religiosa masculina sobre seus subordinados. Mas estende-se também à situações em que os homens dominam familiares, empregados ou aspectos políticos de uma organização social. Assim, as pessoas passam a dever obediência à imagem do homem dominante. O patriarca manteve o poder, ao longo da história, sobre qualquer indivíduo na organização social de que fazia parte. Poderia ser sua mulher, seus filhos, seus súditos, seus escravos ou seu povo. Cabendo-lhe o poder de decisões cruciais de forma inquestionável no seio da sociedade. Assim, na vigência do patriarcalismo, as relações humanas são estabelecidas em patamares desiguais e hierarquizados. O patriarca representa a autoridade maior determinando as condições que justificam seu status de superioridade e o status de inferioridade dos outros indivíduos. (Patriarcalismo – InfoEscola)

Quando nos referimos ao ser humano, falamos “o homem”. Quando duas pessoas estão juntas, mesmo que de sexos diferentes, falamos delas no masculino. O Deus vigente é homem, é o “Deus pai”, quando já foi uma Deusa Mãe e, na língua original, apresentava-se este mesmo deus como “mãe” (origem da palavra Elohim, ligada à noção de maternidade). O chefe da família é o homem. No mundo dos negócios e da política, ele é, sem sombra de dúvidas, o sexo mais presente.

Aliás, anteriormente, política e negócios eram esferas unicamente masculinas. Afirmava-se categoricamente que as mulheres não entendiam disso, não serviam pra isso ou não tinham aptidão para isso (leia-se: inteligência insuficiente). Há pouco tempo atrás, nem mesmo votar ou estudar era permitido às mulheres. Estas ficavam em casa, cuidando dos filhos, limpando tudo e preparando a comida, servindo ao marido.

Mas essa história de diminuição e opressão da mulher não é de agora. Vem, na verdade, de muito, muito tempo atrás…

A inferiorização da mulher desde a Antiguidade

Os deuses criaram a mulher para as funções domésticas, o homem para todas as outras. Os Deuses a puseram nos serviços caseiros, porque elas suportam menos bem o frio, o calor e a guerra. As mulheres que ficam em casa são honestas e as que vagueiam pelas ruas são desonestas. (Xenofonte: 427 –355 a.C.)

Platão e Aristóteles já falavam da inferioridade das mulheres em relação ao homem – não é por nada que a Igreja Católica, na Idade Média, vai buscar os textos de Platão para respaldar seu dogma bíblico.

Na Grécia antiga, enquanto o homem era o modelo do forte, do poder, do belo, do admirável, mulheres eram tidas como aquelas que deviam cuidar da casa e que serviam apenas para procriar (não para sexo como divertimento, para isso havia as prostitutas). Elas não votavam – apenas os homens constituíam as assembleias e assumiam cargos políticos, ficando proibida a participação de mulheres e escravos –, casavam assim que chegavam à puberdade (normalmente, a partir dos 13 anos) e não podiam ser vistas nas ruas, ou poderiam ser confundidas com prostitutas e escravas.

No século das luzes, os iluministas eram bastante taxativos. Immanuel Kant dizia que a mulher era naturalmente mais bonita que o homem e pouco capaz de pensar. Rousseau dizia que a mulher só deveria cultivar a razão se essa faculdade pudesse lhe garantir o cumprimento de seus deveres considerados como “naturais”, ou seja, obedecer e ser fiel ao marido e cuidar dos filhos e da casa. Segundo esse autor, a mulher que ousasse se dedicar à vida intelectual deveria permanecer solteira.

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Nos anos 60, período de pós-guerra, o estereótipo da dona-de-casa feliz e submissa ao marido é intensivamente reforçado pela publicidade.

É nessa configuração que o patriarcalismo se firma nas estruturas sociais e psicológicas, formando padrões, preconceitos e dogmas, enraizando culturas fortemente machistas. É nessa conjuntura que, independente do que aconteça, à mulher cabe a culpa e o silêncio. Apenas.

Isso é algo tão visceral que, há alguns dias atrás, estava vendo a publicação de um ex-aluno meu que compartilhara um vídeo em que um homem proferia animosamente contra o pai da Mc Melody – uma garota de 8 anos que canta letras de funk completamente desapropriadas para sua idade e que tem sua imagem supersexualizada pelo próprio pai, que lucra com isso indiferente se a expõem a pedófilos ou o mal que faz à menina – e um amigo dele comentou: “acho que se fizesse funk realmente com algum significado tudo bem, mas se for pra ir na TV falar besteira, não dá! Senão, põe pra ser atriz pornô logo, ela quer”. Aqui é bastante claro como a culpa recai sobre a mulher e, mais assustador ainda, isso independe de sua idade.

A culpabilização do gênero, desde o nascimento

Uma menina de 8 anos que certamente não tem consciência de seus atos, não pode responder por si, inteiramente alienada pelo próprio pai e que não sabe a que riscos está sendo exposta, essa mesma menina é ilustrada como quem deseja ser atriz de filme pornô (aqui colocado de forma bem pejorativa) por conta da imagem construída pelo pai.

A questão da culpabilidade começa, então, desde a infância. É uma questão ligada diretamente ao gênero feminino. É Eva a culpada por Adão comer a fruta e cometer o pecado, pois ela o induziu. É culpa de Eva, e através dela, que os homens (ser humano) já nascem pecadores neste mundo.

É muito comum, por exemplo, que se culpe a criança-menina em casos de pedofilia dentro de casa: foi ela quem provocou (não o homem que cometeu, ele foi um sujeito passivo). Mais tarde, quando adolescente, jovem e/ou adulta, essa mesma menina vai ser ensinada a não usar roupas curtas para não provocar um estupro, para não chamar atenção de estupradores. Ou seja, a responsável pelo estupro é ela, que provocou. Não o estuprador, que cometeu.

Essa mulher vai descobrir, mais tarde, que a culpa também é dela se uma foto ou vídeo íntimo vazou. Porque ela quis tirar a foto e fazer o vídeo e isso não é um direito dela (só dos homens, porque pra eles não só é um fetiche como algo para contar vantagem). Não é culpa de quem espalhou indevidamente, quem viralizou sem permissão e expôs a imagem da mulher. Afinal, se não tivesse tirado a foto ou gravado, para começar, não teria o que divulgar, não é?

Essa mulher vai descobrir, mais tarde, que a culpa é dela se engravidar inesperadamente. A gravidez é algo que ela fez a si mesma, ela escolheu. Não importa que o preservativo masculino seja o mais seguro: se ele não usou, a culpa é dela por deixar. A gravidez não planejada é culpa dela. E se abortar e morrer (coisa que só acontece em países onde isso é proibido, como o Brasil), a culpa é dela também por não querer ser mãe. E mais: ela merece.

Se essa mulher for traída, a culpa será dela por não “dar assistência”, e não do homem que traiu. E até pouco tempo atrás, se ela fosse assassinada pelo cônjuge em crime passional, ele seria inocentado por ter cometido o crime “em defesa da honra”. Para a lei, era um crime passional; para o homem, era defesa da honra; para ela não era nada, pois já morreu e não teria voz. Como sempre.

Inclusive, para vergonha da ciência, é muito comum que mães de crianças autistas sejam culpadas pela doença do filho. A Psicanálise insiste em afirmar que o autismo é uma psicose causada pela rejeição materna/paterna e, frequentemente, nas clínicas, é a mãe quem paga o pato.

Nos anos 40, Leo Kanner, numa releitura freudiana (onde mulher é aquela pessoa sem pênis e o homem é tudo nessa vida), colocou a culpa do autismo nas “mães geladeiras”. Eram mães que tinham dificuldades de brincar com os filhos justamente por eles serem autistas, mas para Kanner, eles eram autistas porque essas mamães monstras não brincavam com eles.

Nos anos 60, Lacan apareceria para dizer que não, não eram geladeiras, eram “crocodilas”. Lacan descreveu crianças autistas como “vítimas da alienação de uma mãe psicogênica que é incapaz de se separar de uma criança que é um substituto para o pênis que ela nasceu sem”.

Graças aos nossos queridos cientistas, sabemos que o autismo é genético, portanto sua origem não tem hipótese de ser culpa da mãe-geladeira, da mãe-crocodilo, como afirmam os psicanalistas. A mamãe do blog A Lagarta Virou Pupa nos conta como no Brasil ainda é comum que as mães ouçam do pediatra que isso é “falta de estímulo”, “excesso de TV e DVD” e as condições precárias que os autistas encaram na França, por ser um país muito ligado à psicanálise.

Exposto esse quadro de horrores, no qual quem sai de “patinho feio” é sempre a mulher, chego à conclusão que a pergunta certa a fazermos não é se a mulher nunca é culpada, mas sim por que a culpa é sempre da mulher?

Fonte: Cristina Rastafare
Fonte: Cristina Rastafare

Nesse cenário está também a questão do silenciamento, decorrente do patriarcalismo e do machismo enraizados. A mulher é ensinada desde sempre a se calar, submeter, ignorar, “deixar pra lá”.

O pai que diz que “bate porque ama”, “bate para não sofrer mais pra frente” será espelhado mais tarde no discurso do companheiro violento. A filha terá aprendido a se submeter também num relacionamento em que sofre violências – que não precisam ser necessariamente físicas, mas podem chegar a isso ou pior – e se manterá calada sabendo que é “por amor”.

As cantadas de rua, alvo de muitas críticas (finalmente), são outro exemplo de silenciamento da mulher. Ainda que nos incomode, ainda que nos causem medo, ainda que nos causem repulsa ou raiva, aprendemos que o melhor é ignorar. Deixar pra lá. Passarmos quietas e fingirmos que não ouvimos, enquanto o “galanteador” (ou o desrespeitoso que infringiu nosso espaço?) se sobressai na cena: soberano e “másculo”. E continuamos a não responder, porque ainda existe o medo do estupro, da agressão, do revide do macho transgredido pela fêmea que ousou enfrentá-lo.

Fonte: Escreva Lola, Escreva!
Fonte: Escreva Lola, Escreva!

O silenciamento também está presente no parto, nas violências obstétricas. A mulher que não tem voz contra o sistema obstétrico, que não pode dizer “eu me informei e sei que parir de cócoras é o melhor para meu corpo, não quero parir deitada”, a mulher que é obrigada a assumir a posição passiva, deitada na maca, que é pior para o seu corpo e para o procedimento do parto, mas melhor para o médico que vai observar e intervir.

A mulher que ouve “na hora de fazer não gritou, né?”, até mesmo de outra mulher, que aprendeu com o modelo vigente a reproduzir essas opressões e perpetuar o silenciamento e culpabilização das suas iguais.

A religião é um dos fatores mais fortes nessa questão. Com um histórico marcante nas questões de gênero, dogmatizando o androcentrismo (homem no centro de tudo) e marginalizando, ou melhor, subalternizando os “não-homens”, é um fator decisivo na construção e entranhamento do machismo na sociedade.

Ainda hoje se fala da submissão da mulher ao marido, pois é bíblico – justifica-se com o texto de uma sociedade que viveu há milênios atrás, com outros costumes, outros padrões, outras regras. Mas o mesmo patriarcado.

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Capa do “Folha Mulher”, sessão do jornal da Igreja Universal de 18 de Agosto de 2013.

Em 2013, a Universal lançaria um jornal, que eu mesma recebi na rua, com uma matéria destacada, ilustrada com uma foto enorme, dizendo “Submissão de verdade é liberdade”, falando da mulher que é submissa ao marido. Ainda este mês, ouvindo a rádio gospel com minha mãe – que é evangélica assembleiana – ouvi o VJ do rádio, um pastor, dizendo que o chefe da casa é o marido e acima dele está Deus, o chefe de todos, e todos devem ser submissos aos chefes. A mulher ao marido e o marido a Deus.

Resolver a questão de gênero, de culpabilização e silenciamento da mulher, não é só, então, destruir a igreja e está tudo certo. Não é, também, apenas destruir o capitalismo, pois o patriarcado é anterior a esse sistema econômico, por mais que seja ele um grande sistema de opressão às mulheres. Por mais que o machismo seja um dos seus pilares de sustentação, como o é o racismo também.

É uma mudança radical nos pensamentos enraizados há milhares de anos, justificados em vasta literatura (machista) de filósofos e cientistas – marcadamente homens – e apropriadas por um sistema político e econômico que lucra e se aproveita dessas diferenças.

Não há, pois, calcinhas anti-estupro? E os ônibus-rosa? E os sprays de pimenta recomendados às mulheres à noite? E o sistema de leis que admitia o crime em defesa da honra e a ideia de crime passional, falava de uma “mulher de bem” e lhe negava o direito de registrar o filho sem a presença do pai (mas permitia ao pai registrar sozinho)? E as cotas de mulheres exigidas, muito recentemente, para que os partidos participassem das eleições (mas que nada mudaram, pois ainda focam homens e usam as mulheres para cumprir a exigência)?

Não são tudo isso medidas que remediam a situação, mas não cortam a raiz do problema, perpetuando a culpa das mulheres e transferindo para elas a responsabilidade do crime de outro?

A defesa da igualdade é urgente, é dever de todos, e passa pela queda de todos esses padrões vigentes: religiosos, culturais, políticos e econômicos. Não precisamos de uma sociedade matriarcal ou uma sociedade patriarcal, precisamos de uma sociedade igualitária, onde não sejamos privilegiados ou para sempre marginalizados pelo órgão sexual com o qual nascemos.

Precisamos sim do feminismo e mais ainda de uma revolução social, econômica, cultural e ideológica para derrubar esses padrões. Façamos valer a máxima: a revolução será feminista ou não será.


Originalmente publicado por mim no Blog Mundo Desalienado, agora com pequenas alterações.

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